quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis: ontem, hoje (sempre?)


O livro, o filme, a obra-prima que permanece atual




Há muitos anos li "Os Miseráveis" e adorei. Não me lembro mais do estilo do Victor Hugo nem do vocabulário empregado, mas ficou marcada aquela trama magistral que atravessa os séculos com uma história riquíssima e atual. Depois, vi o filme umas duas vezes, e também gostei muito. Tinha esquecido um pouco a parte em que aparece o Gavroche e o final da história e senti a emoção toda de novo. Chorei, chorei....

Bem, de volta ao início do filme, então. A nova produção, um musical, é primorosa. Algumas vezes achei que esse formato atenuou a tristeza e a desgraça dos miseráveis, o que não sei se é positivo, mas as 2:30min passam bem, você não sente cansaço. Os diálogos não são rimados, como em Cyrano de Bergerac, outro filme que adoro, e há bastante repetição de frases finais, para marcar o sentimento dos personagens. Os atores são todos bons e conseguem representar mesmo cantando (acho isso mais difícil). Figurino e trilha sonora não deixam a desejar. Quanto à maquiagem, o protagonista e o anti-heroi não me pareceram envelhecer adequadamente.

O filme é bem dirigido, enfatiza algumas partes que para mim não eram tão destacadas no livro (não sei se me lembro bem), como as artimanhas do casal inescrupuloso que se aproveitou de Cosette e sua mãe, e passa mais batido por outras, como o sofrimento da mãe de Cosette, a vida da menina e as fugas de Valjean pelos esgotos da França – isso lamentei, no livro me pareceu mais claro que se pretendia jogar os miseráveis para a periferia, os esgotos, mas que de algum modo eles voltavam, emergindo de si próprios.

No cômputo geral o filme é bastante fiel à obra. Não há maniqueísmos, exceto quanto à visão da igreja, que é a boazinha da história. Mas vemos pobres honrados e vilões, ricos conscientes (na verdade só o Marius, a princípio), homens da lei sem honra e condenados com uma consciência de fazer inveja a qualquer cristão.

O início do filme é uma cena linda, gigantesca, daquelas que você tem que ver no cinema mesmo. O ritmo da corda sendo puxada lembrando as marés, o coração, o próprio ritmo da vida dos miseráveis, trabalhar, trabalhar, sem descanso, reconhecimento ou retribuição.


Em seguida somos confrontados com o significado inexistente da justiça (meu marido sempre me diz que se escreve com J maiúsculo, mas eu me nego. Se fosse, eu escreveria, mas como é injustiça, é tudo pequenino). O cara rouba um pão para alimentar o filho da irmã que tinha fome, e por isso passa 19 anos preso. Esse prisioneiro, Jean Valjean, dá uma demonstração de força absurda erguendo sozinho uma tora gigantesca e é bem observado pelo policial Javier (foto abaixo) nessa hora.


 Ao ter sua condicional, leva como carma eterno a carta de ex-presidiário, o que lhe impede de obter qualquer emprego ou moradia, e então, escravo do sistema que só aprisiona, corpos e almas, está pronto para desistir (existe liberdade?).

Inesperadamente Valjean (foto abaixo) é acolhido por um padre/bispo que lhe oferece comida e abrigo por aquela noite. De madrugada, rouba prataria e outras coisas e foge, totalmente desacostumado que estava à caridade. É capturado por policiais que o levam à casa do pároco que, para a surpresa do nosso protagonista, confirma sua mentira de que tinha dado os pertences ao fugitivo e acrescenta ainda que ele esqueceu dois castiçais, os mais valiosos. Só por causa disso o homem não retorna ao inferno da prisão. Fica sem entender a atitude do padre e este lhe diz que Deus lhe deu uma segunda chance – aqui a igreja deve ter adorado, o filme todo é pró-clero.


O que um ato de bondade pode fazer com uma pessoa!? Nosso heroi muda, esquece o ódio com que foi tratado pelo mundo, se envergonha de sua atitude e refaz sua vida rasgando a carta de ex-preso. Nunca se apresenta ao agente da condicional e, 9 anos depois, é prefeito exemplar de uma cidadezinha francesa. Até que...

Na fábrica que ele agora dirige, muitas mulheres passam o dia ganhando o pão a custa de muito suor – bom retrato (de época ?), uma em especial se destaca pela beleza e é cobiçada pelo encarregado, a quem, no entanto, ela se nega. As outras têm inveja. Interceptam uma carta para essa mulher que diz que sua filha está doente e ela precisa mandar mais dinheiro. Contam ao encarregado, que se sente humilhado por haver sido preterido por uma mulher que já teve filho com outro e, pressionado pelas ‘colegas’, a demite.


O prefeito não chega a saber da história toda, pensa que o encarregado agiria com justiça. A mulher se desespera (foto abaixo). Na tentativa de conseguir dinheiro para a filha, vende os longos cabelos e até dentes, imagine!! É a humilhação máxima, a degradação humana, a esperança e o sonho que morrem, a juventude que se despedaça, o amor pela filha cegando-a para a situação de exploração que vivencia e se submete. Sequer pensa que pode estar sendo usada pela família a quem paga para tomar conta e alimentar a menina. Se prostitui, fica gravemente doente, dá um tapa em um homem ‘de bem’ com quem não queria transar, o policial Javier chega, o homem conta sua história mentirosa, o inspetor finge que acredita, porque era uma pessoa de ‘nível’ falando, e já ia mandar prender a mulher quando chega também o prefeito. A mulher resume a história da fábrica, conta de sua filha, Cosette, o prefeito se sente culpado e quer ajudá-la. Intervém, evita a prisão e a leva ao hospital.


Um parênteses: em algum momento anterior, Javier conhece o prefeito e desconfia que ele seja o tal Jean Valjean, manda investigar, mas recebe informação de que o outro continua prisioneiro e será condenado à morte. Depois, vê o prefeito levantando novamente um tronco pesadíssimo que estava a esmagar um trabalhador e volta a sua mente a cena inicial do filme. Tem certeza de que é a mesma pessoa e, ao revelar que o preso será condenado à morte, nosso heroi tem um profundo drama de consciência. Ele poderia ficar na dele, tem a oportunidade de escapar do castigo, mas sua honra fala mais alto. Pensa nos operários da fábrica que dependem dele, em Cosette, mas também no pobre homem que perderá sua vida. Vai ao tribunal e diz que ele é Jean Valjean. Como se tratava de um prefeito, o juiz diz que ele não deve estar se sentindo bem. Valjean diz que vai ao hospital saber da mãe de Cosette e que retorna para entregar-se – aqui novamente a justiça se fazendo de cega quando convém.

Jean Valjean adentrando no tribunal e confessando a verdade
No hospital, a mulher está morrendo. Valjean promete que cuidará de sua filha e ela vai em paz. Javier chega para prendê-lo, mas ele escapa porque antes quer resgatar Cosette. A menina é duramente explorada por um casal inescrupuloso, que tem outra filha, Etienne, a quem tratam como uma princesa, enquanto Cosette é a gata borralheira. Depois de ser extorquido, o ex-prefeito leva Cosette, mas é perseguido por Javier. Escapa, porém, e mais 9 anos se passam.


Cosette agora é uma linda moça. Na França do século XIX os jovens exigem uma revolução, as injustiças sociais não foram resolvidas com a queda de um rei. Depois de um vácuo, outro rei ocupa o poder e nada mudou. O povo parece que apóia a revolução e os jovens sonham com um amanhã melhor. Um dos líderes da revolução é Marius, de família rica, que se apaixona por Cosette, e é recíproco, mas ele é também o amor de Etienne. 

A moça, agora meio maltrapilha, está com os pais inescrupulosos pelas ruas, era a irmã de criação de Cosette que no atual instante leva ‘vida boa’ – como na vida os papéis se invertem, não? A gente pensa que ela será mau caráter, mas não. Tudo o que faz é ajudar e depois apodera-se de um bilhete que Cosette deixa para o amado antes de ser obrigada a mudar-se com o pai adotivo devido à perseguição de Javier.


Há um menino, Gavroche, inspiradíssimo, que é a alma da revolução. Delata Javier, que tentava se infiltrar entre os rebeldes. 

A moça Etienne se joga para proteger o amado Marius de uma bala, é ferida e acaba morrendo nos braços de seu adorado. Antes, porém, tem tempo de entregar-lhe o tal bilhete. Marius manda Gavroche levar um bilhete resposta e é Valjean quem o recebe. Não fala nada para a filha e abre mão de sua fuga, de sua liberdade, para salvar o grande amor da filha. O sacrifício dos mais velhos, dos pais. Decide ir lutar pela revolução também. A esta altura Javier está prestes a ser enforcado e Valjean pede que lhe deem o prisioneiro, o que é aceito. Ao invés de ter sua vingança, como espera Javier, o heroi finge que o mata e na verdade o liberta. Javier não entende. Diz que não se sente em dívida e que o caçará novamente.

Na hora H o povo se omitiu e os jovens ficaram só, com o exército francês avançando impiedosamente. A inocência do idealismo se apresenta, simbolizada pela morte violenta de Gavroche. Praticamente todos os jovens morrem na luta, exceto Marius, que é salvo por Valjean, que o carrega, ferido, por esgotos imundos (Marius, no entanto, desconhece esse fato). 


Próximo à saída do esgoto, encontra novamente o casal inescrupuloso, que lhes rouba o anel. Quando o jovem se recupera, Valjean, ainda fugindo, teme por Cosette. Até hoje, malgrado as insistências da moça em saber a verdade, ele nunca a havia contado. Relata para Marius, mas o faz prometer que apenas dirá à filha que o pai saiu numa longa viagem. Ao saber dessa meia verdade, ela se entristece, não entende, mas segue a vida. Vai casar-se com Marius, que voltou à sua boa vida burguesa (aqui uma discussão: então se o povo não apoiou sua luta, que deveria ser a de todos, e ele perdeu todos os seus amigos, culpando-se por ter escapado, é hora de esquecer e voltar ao que é bom, a riqueza, a fartura??).

Enquanto isso Javier não se aguenta. Tem dúvidas, questiona afinal se Valjean é do céu ou do inferno. Não aceita que Valjean seja tão melhor que ele. Ele que sempre foi duro, impiedoso, intransigente na obediência cega à lei, agora balança, mas não consegue mudar. Perde-se de si mesmo e condensa em uma frase seu gesto de suicídio: “Ele (Valjean), ao me salvar (do enforcamento), me matou mesmo assim”. Joga-se de uma ponte. 


É o dia do casamento de Cosette e Marius. Há festa na mansão. Marius reconhece o casal inescrupuloso e o anel roubado e o homem lhe conta onde Valjean está: na velha igreja, morrendo Marius compreende que foi ele quem lhe salvou, tira Cosette da festa e a leva até o pai. Ela lhe dá carinho, ele diz que já pode morrer em paz, ela diz que não, ele retruca com “isso, Cosette, me proíba de morrer, eu tentarei”. Aparece a imagem da mãe de Cosette vindo buscá-lo, dizendo que ele fez o bem, que irá agora para um lugar sem sofrimento (a igreja vibra de novo). Antes de partir, ele deixa um bilhete de explicação à Cosette, enfim.

Imagens dos sonhos com o amanhã, dos jovens revolucionários ainda vivos aparecem, mostrando que há esperança, que há futuro. A música é vibrante, dizem a frase “Que o vinho da amizade nunca seque”. Eu choro de me acabar.


15 comentários:

  1. A versão "Les misérables", com Gerard Depardieu, apresentada como mini serie para TV é excelente! A Cahu tem. Espetacular também a atuação de John Malkovich. Vale a pena. Eu e Evandro assistimos a esta e também a versão americana, com Liam Neeson, Geoffrey Rush e Uma Thurman. Boa, mas um foco totalmente diferente.
    O musical está em nossa lista. Bela estória!

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  2. Muito bom! Vou ver.

    EPA

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  3. Oi Cintia e Evandro, não conheço a versão mini série. Seria apropriada para 12 anos? Pergunto porque Newton comprou uma versão teen do livro e Amanda gostou muito. Ela está quase no fim. O filme que vimos, pela duração e formato, ela acharia chato, me parece. Já uma mini série seria ideal. É muito interessante comparar as diferentes visões dos cineastas, é como a tradução de um livro ou os comentários de seus leitores, sempre muda, ainda que a estória principal seja a mesma. Obrigada por participar.

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    1. Oi Rita. Que responsabilidade! Se a Amanda curte assistir filmes adultos com vocês, é claro, sem cenas inapropriadas para a idade dela, acho que pode gostar sim. Até porque ela vai identificar no filme muito do que leu e curtiu no livro. A mini série é longa, mas, repito, excelente. Não há cenas inapropriadas para menores.
      Sim, foi interessante ver as diferentes interpretações dadas pelos diretores. A versão francesa destaca fortemente a mensagem ética da estória e, por ser mais longa conseguimos nos envolver mais com as personagens e seus dilemas. Já a americana exalta o lado heroico. Por ser mais compacta fica um pouco superficial em comparação a primeira. Bj!

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  4. Adorei seus escritos, mas você falou que fez umas anotaçõezinhas no cinema e na verdade são quase 3 volumes rsrsrs Desculpe, não podia perder a piada. Estou sob o impacto de Infâmia´, mas concordo com tudo o que você escreveu sobre Les Miserables. Nunca li Victor Hugo e acho que vi o filme mais antigo que passava no cinema Ópera em preto e branco que eu ía ver com a minha avó, se é que não estou misturando tudo a essa altura do campeonato. Parabéns, belo trabalho!

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  5. Vai acabar virando crítica de cinema, já pensou que trabalho mais gostoso? Ter que ver filmes para fazer a crítica e ainda por cima ganhar para isso? Ficou muito boa sua crítica, completa.

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  6. Rita você simplesmente nào deixou nada a ser tido Apenas Maravilhoso seu comentário......Nesta fase da vida de Vitor Hugo ele era pró igreja depois se desiludiu e abandonou o credo católico.

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  7. Rita você não deixou nada a ser dito. Maravilhoso seu comentário. Acrescento que nesta época Vitor Hugo era pró igreja, depois de se decepcionou e abandonou a crença.

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  8. Ah, Rose, viajei na maionese com essa sua ideia de ser crítica de cinema, adorei. Mas deve ter que ter formação em cinema para isso e, confesso, não tenho vontade de voltar à faculdade por enquanto. Agora, tem cada crítica que leio que parece que o cara nem viu o filme, ou viu outro e achou que dava na mesma. As sinopses que têm na sky então, muitas são completamente desconectadas da película, coisa de louco.

    Regina, obrigada por seus comentários e esclarecimentos. Gostei de saber que Vitor Hugo depois se decepcionou com a igreja. Deve ter se revirado na tumba quando leu que na Irlanda, governo e igreja se uniram para submeter mulheres a trabalho escravo em pleno 1996. Arre égua!

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  9. Rita, adorei ler seu texto. Eu não li o Victor Hugo, mas pelo que voce descreveu, acho que é uma história de arrepiar os cabelos de boa. É mais um a ser acrescentado a minhas pretenções futuras de leitura.

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  10. Olá Rita, vimos o filme. Enfim vejo algo com uma abordagem generosa da Igreja. Acho injusto que só se fale mal. O filme dá um bom exemplo de como deveriam ser os católicos. Bela mensagem!

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  11. É um ponto de vista interessante, Evandro. Concordo que não se deva apenas falar mal, mas aprecio mais quando o filme, o livro, a peça, o que seja, procure mostrar os dois lados. De toda forma, Regina, em comentário mais acima, nos disse que depois Victor Hugo se desiludiu com a Igreja e abandonou a crença. Isso aconteceu comigo também, já fui de grupo jovem, cantava na missa e tudo, depois, me decepcionei.

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  12. Eu também. Não sou Católico, mas respeito e admiro a instituição.

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  13. Rita, vou te confesssar uam coisa.Não li seu texto todo.Vi que está muito bom e extenso, sinal de ter curtido bastante! Estou lendo o livro e penso que Victor Hugo não dá uma boa visão da Igreja.Ele dá uma visão ideal , do que deveria ser a Igreja.O Bispo da história é um bispo apaixonante, como deveriam ser os bons apóstolos de Cristo.Victor Hugo ironiza bastante comportamento daqueles tidos como cristãos, no livro...Depois de ver o filme , poderei comentar melhor.Estou tão apaixonada pelo livro...Veja, o bispo recebeu um presente de ladrões que roubaram uma igreja, um verdadeiro tesouro; e o que faz? Veja uma notação dele(bispo):O DIFÍCIL É SABER SE ISTO DEVE VOLTAR `A CATEDRAL OU AO HOSPITAL.(Ele ajudava com muitos donativos ao hospital).ACHO QUE NÃO DEVOLVEU!RSRSR Ele estava criticando a Igreja com seus tesouros, não é? Nem todos da Igreja são mauzinhos.Gostaria muito que vc lesse essa joia! Bjs e parabéns pelo cuidado com o blog, PELO TEXTO TB, até onde li...

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    1. Oi, Elô. Vc fez bem em não ler tudo pq eu contei o filme inteiro, rsrsrs. Me empolguei e já viu. Não acho que todos na igreja são mauzinhos não, em todo lugar tem gente do bem. Quanto ao livro, eu li no tempo em que fazia Aliança, mais de 15 anos atrás, me lembrava da história quase toda, mas não dos detalhes da escrita. Talvez um dia eu releia, pq definitivamente vale à pena, mas por enquanto quero ler o que ainda não li. Obrigada por comentar.

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